O avanço das drogas sintéticas e a dificuldade de medir com precisão o consumo dessas substâncias no Brasil expõem um novo desafio para a saúde pública nas grandes cidades. O problema é considerado mais dinâmico, menos previsível e, muitas vezes, invisível às estatísticas tradicionais.
Embora no Brasil crack e cocaína ainda predominem, especialmente nos atendimentos na saúde, gestores e especialistas apontam uma mudança gradual no perfil de uso. As drogas sintéticas vêm ganhando espaço em um cenário ainda marcado pela escassez de dados consolidados.
Substâncias como metanfetamina, opioides e canabinoides sintéticos, MDMA, catinonas e cetamina são conhecidas por sua alta toxicidade e efeitos imprevisíveis no sistema nervoso central. O uso pode levar a problemas de saúde graves, incluindo intoxicações, surtos psicóticos e morte.
O tema foi discutido na Cúpula da Parceria para Cidades Saudáveis, realizada no Rio de Janeiro. A rede global é apoiada pela Bloomberg Philanthropies em parceria com a OMS (Organização Mundial da Saúde) e a Vital Strategies.
A iniciativa apoia projetos em 11 cidades no mundo voltados à prevenção de mortes por overdose. A lista inclui Bogotá, Buenos Aires, Atenas, Londres, Helsinque, Milão, Filipinas, São Francisco, Baltimore, Vancouver e Rio de Janeiro.
Entre as ações está o aumento do acesso à naloxona, medicamento antagonista de opioides usado para reverter overdose por substâncias como morfina, heroína, fentanil e tramadol.
Cidades como Atenas e Milão têm trabalhado com populações vulneráveis, incluindo pessoas em situação de rua. Ariella Rojhani, diretora de programas da Parceria para Cidades Saudáveis, afirmou que Atenas liderou uma declaração ministerial para expandir o acesso à naloxona além do ambiente hospitalar.
“A naloxona agora está mais facilmente disponível para pessoas que usam drogas e para seus amigos e familiares, para que possam intervir em caso de overdose”, relatou.
No Rio, a aposta do projeto tem sido combinar informação e cuidado. A integração de dados permite mapear padrões de consumo e identificar territórios mais vulneráveis.
“Conseguimos ter um mapa da cidade e organizar o cuidado focando nas pessoas mais vulneráveis”, disse o médico Daniel Soranz, que deixou a Secretaria Municipal de Saúde do Rio para disputar reeleição para a Câmara dos Deputados.
O programa trabalha em várias frentes no uso de drogas por moradores de rua ou em outros contextos de vulnerabilidade. Entre as ações estão a melhoria dos registros e o treinamento de equipes para a reinserção no mercado de trabalho.
Segundo Soranz, o crescimento de efeitos adversos das drogas sintéticas já começa a aparecer de forma incipiente nas estatísticas da rede pública de saúde.
“Antes da pandemia, não conseguíamos ter esses dados agregados. Hoje temos o prontuário clínico integrado de uma população de 6,7 milhões de habitantes”, disse.
Ele afirmou que isso permite identificar usuários que chegam ao sistema e estruturar planos terapêuticos individualizados, iniciados na atenção primária e articulados com outros níveis de cuidado, como os Caps AD (Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas). As informações são usadas exclusivamente para fins de saúde.
De acordo com gestores e especialistas, o impacto das drogas sintéticas na saúde segue subdimensionado. A natureza dessas substâncias, com composições variáveis e cadeias de distribuição menos visíveis, dificulta o monitoramento.
“Sem dados, não conseguimos dimensionar o problema. E sem isso, não conseguimos cuidar”, resumiu Soranz.
Esse cenário acompanha uma tendência global. Segundo Daliah Heller, vice-presidente de Iniciativas para a Prevenção de Overdoses da Vital Strategies, o avanço dessas substâncias está redesenhando o mapa do consumo. Países antes vistos apenas como rotas de trânsito passam a ser também mercados consumidores.
“Não é como o ópio vindo do Afeganistão. A produção pode acontecer em um laboratório local e chegar ao usuário rapidamente”, explicou. Essa mudança encurta rotas, reduz custos e acelera a disseminação.
Além disso, o mercado se caracteriza por mutação constante. Nos Estados Unidos, por exemplo, o fentanil tem sido misturado a sedativos e outras substâncias. O resultado é maior imprevisibilidade e risco elevado.
Diante desse cenário, cresce a importância de estratégias de monitoramento em tempo real. Heller destacou três frentes principais: testagem de drogas em campo, análise laboratorial e sistemas de alerta precoce.
Modelos desse tipo já operam em cidades como Vancouver e Toronto, onde plataformas públicas divulgam semanalmente o que circula no mercado local. “É informação para salvar vidas”, afirmou.
A especialista também enfatizou o papel central das cidades. “São os municípios que veem o problema acontecer em tempo real e precisam agir”.
Diante de um aumento de 763% nas apreensões de alfa-PVP (uma catinona sintética conhecida como “peukku”) no primeiro semestre de 2025, a cidade de Helsinque lançou uma nova estratégia municipal. A abordagem é conjunta entre as autoridades de saúde e segurança.
Na saúde, houve intensificação de programas de educação, desintoxicação e suporte rápido. A alfa-PVP também foi incluída em novos pacotes de testes laboratoriais de saúde ocupacional.
Em Londres, autoridades trabalham em sistemas capazes de detectar surtos de overdose quase em tempo real e emitir alertas rápidos.
Um dos desafios mais críticos está na própria identificação dos danos. Enquanto overdoses por opioides são mais facilmente reconhecidas, o mesmo não ocorre com estimulantes como cocaína e anfetaminas.
“Muitas mortes aparecem como parada cardíaca ou infarto, mas podem estar diretamente ligadas ao uso de drogas”, afirmou Heller. Essa subnotificação mascara a real dimensão do problema.
Há ainda fatores agravantes. Evidências indicam que o uso frequente de estimulantes, combinado a ondas de calor, aumenta o risco de eventos cardiovasculares fatais. É uma preocupação relevante em cidades como o Rio de Janeiro, onde temperaturas extremas se tornam mais comuns e o consumo ocorre em condições de vulnerabilidade.
