Morre Marcelly Malta, pioneira na defesa de travestis no RS. A ativista faleceu neste sábado (4), aos 75 anos, em Porto Alegre. A informação foi divulgada pela ONG Igualdade – Associação de Travestis e Transexuais do Rio Grande do Sul, fundada por ela no final dos anos 1990.
Nascida em Mato Leitão, no interior do Rio Grande do Sul, Marcelly Malta Lisboa se mudou para a capital na adolescência. Com ajuda de freiras franciscanas, estudou e trabalhou como enfermeira na Santa Casa de Porto Alegre, um sonho de infância inspirado por uma tia que também era enfermeira.
Além dos plantões no hospital, Marcelly atuou como prostituta nas ruas e boates de Porto Alegre. Nesse ambiente, conheceu travestis e assistiu a shows, mas também enfrentou violência e discriminação. Essa experiência marcou o início de sua trajetória como ativista.
Em nota, a ONG Igualdade a descreveu como “uma mulher travesti de coragem, força e dignidade” e uma “guerreira incansável na luta pelos direitos da população trans e travesti do Brasil”.
Em 2011, aos 60 anos, Marcelly presidia o Conselho Municipal de Direitos Humanos de Porto Alegre. Na ocasião, conseguiu na Justiça o direito de retificar o nome no registro civil. A conquista abriu precedentes para outras pessoas trans em todo o país.
Sete anos depois, em 2018, o STF (Supremo Tribunal Federal) reconheceu o direito de transexuais alterarem a identidade de gênero e o nome sem necessidade de cirurgia de redesignação sexual. Na época, Marcelly disse: “Parece que nasci novamente. Fico muito orgulhosa de poder saber que daqui para frente outras travestis poderão evitar constrangimentos”.
Na década de 1990, Marcelly passou pela Europa como trabalhadora sexual. “Não foi o estado que me deu o que tenho, foi a prostituição”, afirmou em entrevista ao TravaTalk Podcast há um ano. Na mesma conversa, relatou violências sofridas em prisões em Porto Alegre, onde foi encarcerada durante a ditadura militar sob acusação de vadiagem.
De volta ao Brasil, sua atuação no Gapa (Grupo de Apoio à Prevenção da Aids) a tornou influente entre as travestis da capital gaúcha. Ela tinha acesso a informações sobre prevenção e tratamento contra a Aids, o que fortaleceu sua liderança no movimento.
Várias organizações LGBTQIA+ lamentaram a morte e destacaram seu pioneirismo. A Parada Livre de Porto Alegre afirmou que Marcelly “abriu caminhos, enfrentou violências, ajudou a organizar uma geração de ativistas”.
Toni Reis, diretor da Aliança Nacional LGBTI, disse que ela seguia atuando pela defesa do direito de envelhecer com dignidade. “Sua existência valeu a pena”, declarou.
A deputada federal Duda Salabert (PSOL-MG) afirmou que Marcelly teve uma reunião recente com sua equipe para discutir ações sobre empregabilidade trans. A deputada a chamou de “sobrevivente da ditadura” e “uma das pioneiras na militância contra o HIV/Aids”.
Marcelly também deu aulas de formação para agentes e delegados da Polícia Civil, a convite do governo estadual. Em entrevista ao podcast, aconselhou a população trans mais jovem a estudar e se emocionou ao falar sobre as homenagens que recebeu.
O velório ocorre neste domingo (5), das 7h às 12h, na Casa dos Conselhos de Porto Alegre.
