O Corinthians é, há muito tempo, um paradoxo ambulante. Segundo maior torcida do país, atrás apenas do Flamengo, dono de uma marca poderosa, de uma história gigantesca e de uma capacidade de mobilização que poucos clubes no mundo têm – e, ao mesmo tempo, refém de uma crise administrativa e financeira que parece não ter fim.
É quase doloroso acompanhar de longe. Porque não se trata de falta de tamanho. Não se trata de falta de receita potencial. Não se trata sequer de falta de relevância esportiva. O que se vê é um clube que, ano após ano, se embaraça na própria gestão, acumula decisões equivocadas e convive com um ambiente interno que mais parece um permanente estado de tensão.
E é justamente nesse cenário que surgem as soluções fáceis.
A coluna Futebol Etc recebeu um e-mail da assessoria do consultor Hugo Cayuela, especialista em reestruturação, propondo um caminho quase didático para tirar o Corinthians do buraco. Organizar o passivo, renegociar dívidas de forma estratégica, preservar receitas, profissionalizar a gestão, discutir a transformação em SAF. Tudo faz sentido. Tudo é coerente. Tudo está, no papel, absolutamente correto.
Cayuela, com formação em administração pela PUC-SP, especialização em governança corporativa e experiência em processos de reestruturação, aponta que o problema do Corinthians não é apenas o tamanho da dívida, mas a velocidade com que ela pressiona o caixa e limita a capacidade de decisão do clube. E, a partir desse diagnóstico, propõe um plano baseado em três pilares: reorganização do passivo, ajuste do fluxo de caixa e revisão do modelo societário.
O problema é que o papel aceita tudo. Na teoria, o Corinthians precisa atacar a crise em camadas: organizar execuções judiciais, alongar dívidas, proteger o fluxo de caixa e redesenhar sua estrutura societária. Na prática, o Corinthians precisa fazer tudo isso enquanto lida com salários atrasados, pressão diária da torcida, desempenho irregular em campo, credores batendo à porta e o risco constante de punições esportivas, que podem ir de restrições a transferências até sanções mais duras.
Na teoria, a recuperação extrajudicial surge como uma alternativa elegante, quase cirúrgica, capaz de reorganizar o clube sem causar grandes traumas institucionais. Na prática, qualquer movimento desse tipo esbarra em disputas políticas internas, resistência de grupos de poder e na dificuldade crônica de alinhar interesses dentro de um clube que historicamente convive com conflitos.
Na teoria, discutir uma SAF é olhar para o futuro, abrir portas para investimento, impor governança e dar previsibilidade. Na prática, significa mexer em estruturas de poder, enfrentar resistências históricas e lidar com uma torcida que, ao mesmo tempo em que quer solução, desconfia de qualquer mudança mais profunda.
E há um elemento que nenhum plano consegue capturar completamente: o ambiente.
Porque uma coisa é desenhar uma solução em um escritório silencioso, com planilhas abertas, projeções organizadas e tempo para refletir. Outra, completamente diferente, é tentar executar esse mesmo plano com a arquibancada cobrando, o time oscilando, o caixa pressionado e a política interna fervendo.
O Corinthians não é apenas um problema financeiro. É um organismo complexo, emocional, barulhento e, muitas vezes, contraditório.
Por isso, talvez a maior diferença entre a teoria e a prática esteja justamente aí: na ilusão de que existe um caminho simples. Não existe.
Existe, no máximo, um caminho possível – longo, desgastante, cheio de obstáculos e que exige algo que o clube não consegue sustentar há anos: disciplina, continuidade e coragem para enfrentar suas próprias distorções.
O diagnóstico de Hugo Cayuela é consistente. A execução, essa sim, é o verdadeiro desafio. O Corinthians, que ontem perdeu de 3×1 para o Fluminense, ilustra em campo as dificuldades que enfrenta fora dele. A derrota recente é mais um capítulo na sequência de instabilidades que o clube precisa resolver. A pressão por resultados imediatos se choca com a necessidade de um planejamento de longo prazo, criando um cenário de desafios constantes para a diretoria e para os profissionais envolvidos na reestruturação.
